15 de setembro de 2026

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Uma dose da vacina da dengue já protege adolescentes de internação, diz estudo

Saúde Vacina 01/09/2026 07:22 Folhapress noticiasaominuto.com.br

Estudo com mais de 166 mil testes mostra que a vacina Qdenga, da Takeda, manteve proteção contra dengue grave e internações em adolescentes por pelo menos um ano, mesmo com apenas uma dose. O imunizante também funcionou contra o sorotipo 3, que voltou a circular no país.

A vacina Qdenga, fabricada pela Takeda, revelou proteção de 88% contra internações por dengue em adolescentes de 10 a 15 anos que receberam as duas doses, segundo um estudo realizado durante as epidemias de 2024 e 2025 em São Paulo.

A pesquisa avaliou o imunizante na chamada fase 4 de testes, o momento em que se observa como a vacina se comporta na vida real, após já estar sendo usada pela população. Nesse estágio, é possível coletar dados de pessoas em maior quantidade, o que ajuda a entender a efetividade, os efeitos colaterais e a questão do número ideal de doses.

5 pontos-chave da notícia

  • A vacina Qdenga protegeu 88% dos adolescentes das internações por dengue com duas doses e 74,6% com apenas uma dose.
  • O estudo analisou 166.390 testes de dengue em adolescentes entre fevereiro de 2024 e dezembro de 2025.
  • A proteção da primeira dose não diminuiu ao longo de um ano, contrariando uma hipótese anterior que sugería queda após 90 dias.
  • O sorotipo 3 da dengue, que estava há mais de dez anos sem circular em São Paulo, voltou a aparecer em 2025 e a vacina continuou funcionando.
  • Os pesquisadores reforçam que, por enquanto, duas doses ainda são o esquema recomendado para a população.

O estudo também descobriu que até quem recebeu apenas uma dose teve proteção contra a dengue sintomática e contra internações. Isso pode ser um sinal de que, no futuro, uma única aplicação seja suficiente para proteger a pessoa.

No total, foram analisados 166.390 testes de dengue feitos em adolescentes entre 20 de fevereiro de 2024 e 31 de dezembro de 2025. Desses, 65.365 deram positivo e 101.025 deram negativo. Os pesquisadores cruzaram os resultados dos exames com os registros de vacinação, usando um método chamado caso-controle test-negativo, que estima a efetividade de vacinas em condições reais de uso.

Entre os adolescentes com duas doses, a proteção contra a dengue sintomática confirmada por teste de antígeno foi de 73,1%. Contra internações, o índice chegou a 87,9%. Com apenas uma dose, os números foram de 59,2% contra a doença sintomática e 74,6% contra internações.

A proteção não cai após 90 dias

Uma análise anterior do mesmo grupo de pesquisa havia levantado a possibilidade de a proteção da primeira dose começar a diminuir depois de cerca de 90 dias. Porém, com mais tempo de acompanhamento, os pesquisadores não encontraram sinais dessa queda.

Entre 270 e 364 dias após a primeira dose, a proteção contra a dengue sintomática foi de 74%. A partir de 365 dias, chegou a 77%. A proteção contra internações também se manteve durante todo o período analisado.

Por que o estudo é importante

Segundo o pesquisador Julio Croda, um dos autores do trabalho, os resultados mostram como análises feitas depois que a vacina já está em uso podem trazer informações que os ensaios clínicos não conseguem capturar.

Na fase três dos testes, o grupo de participantes é muito menor. Mesmo que se comprove a eficácia contra a doença sintomática, não é possível medir com precisão internações, efeitos raros e benefícios menos visíveis com uma amostra pequena. Os ensaios clínicos anteriores à aprovação da Qdenga envolveram cerca de 20 mil pessoas, enquanto a nova análise usou mais de 166 mil testes, o que aumenta a precisão e permite observar eventos que acontecem com menor frequência.

Há também diferenças na situação de saúde dos participantes. No ensaio clínico original, cerca de 70% das pessoas já tinham contato prévio com a dengue (soropositivas). No estudo de São Paulo, a maioria dos adolescentes era soronegativa, ou seja, ainda não tinha tido dengue.

Sorotipo 3 voltou e a continuou protegendo

A pesquisa também acompanhou a mudança na circulação dos sorotipos da dengue no estado. Em 2024, predominavam os sorotipos 1 e 2. Em 2025, o sorotipo 3, que estava há mais de uma década com pouca presença em São Paulo, começou a circular com mais força.

Mesmo com essa mudança, a proteção geral da vacina não caiu. Porém, o resultado não permite afirmar qual foi a proteção específica contra o sorotipo 3, pois a informação sobre o sorotipo responsável pela infecção estava disponível para apenas uma pequena parcela dos casos.

Segundo Croda, novos estudos são necessários para avaliar o desempenho da vacina diante do sorotipo 3 e acompanhar a proteção por períodos mais longos.

Dois doses continuam sendo o recomendado

Apesar da proteção observada com uma aplicação, os pesquisadores alertam que o resultado não deve ser interpretado como prova de que uma dose substitua o esquema atual.

O estudo não foi planejado para comparar diretamente uma e duas doses, e a segunda aplicação produziu números superiores de proteção, especialmente contra internações. Por isso, o esquema completo com duas doses continua sendo o recomendado.

O resultado com uma dose, no entanto, abre uma possibilidade de investigação para futuras estratégias de vacinação. Caso estudos com acompanhamento mais longo confirmem a manutenção da proteção, os dados poderão ser considerados em discussões sobre o uso da vacina em diferentes cenários, inclusive em situações de escassez de imunizantes.

Até um ano de acompanhamento, uma dose continua sendo protetora. Com mais um ou dois anos de acompanhamento, a Organização Mundial da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde e o Ministério da Saúde podem avaliar uma eventual recomendação de apenas uma dose para a população, afirmou o pesquisador.

A Qdenga é uma vacina tetravalente de vírus vivos atenuados contra os quatro sorotipos do vírus da dengue. No Brasil, a campanha de vacinação começou em 2024, durante uma epidemia, com prioridade para crianças e adolescentes e municípios com maior incidência. Em São Paulo, a ação começou em fevereiro daquele ano, com duas doses aplicadas com intervalo de três meses.

O estudo considerou fatores que poderiam influenciar os resultados, como idade, sexo, raça ou cor autodeclarada, presença de doenças crônicas, município de residência e período da epidemia. Os autores afirmam que análises de sensibilidade produziram resultados semelhantes à análise principal.

Entre as limitações está a falta de informação suficiente sobre os sorotipos responsáveis pela maioria das infecções, o que impede estimar a efetividade separadamente para cada um. Os pesquisadores também apontam a necessidade de acompanhamento mais longo para saber por quanto tempo a proteção se mantém após a vacinação.

O trabalho foi coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da Fundação Oswaldo Cruz, com participação de cientistas da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e de universidades dos Estados Unidos e da Espanha. O estudo recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.