Aos 16 anos, Ariane começou a usar narguilé nas festas com amigos e, depois, o cigarro eletrônico também entrou na rotina. Anos mais tarde, os problemas de saúde começaram a aparecer: tuberculose, infecções graves nos pulmões, 18 quilos perdidos e 45 dias internada. Hoje, ela diz passar mais tempo no hospital do que em casa.
Aos 16 anos, a empreendedora Ariane Lima Correia começou a usar narguilé nas festas com os amigos. Ela não tinha o aparelho em casa, mas diz que quase sempre alguém levava um para os encontros. Se a gente estivesse numa roda de dez pessoas, pelo menos três narguilés apareciam, conta. As sessões duravam até o efeito começar a bater. Fumava tanto que tava com tontura e a pressão caía.
Mais tarde, o cigarro eletrônico também entrou na rotina. O uso se concentrava nos fins de semana, sempre junto com os amigos e muitas vezes em companhia do próprio narguilé. Não fumava em casa, mas quando eu saía à noite, fumava, diz.
5 rapidinhas sobre o caso
- Ariane usa narguilé desde os 16 anos e, depois, passou a usar também o cigarro eletrônico, principalmente nos fins de semana com os amigos.
- A água do narguilé não é um filtro: ela só reduz um pouco a temperatura da fumaça, mas não segura as substâncias tóxicas que atingem os pulmões.
- O cigarro eletrônico libera aerossol com nicotina, metais e compostos perigosos como formaldeído e acroleína, não apenas vapor de água.
- Um usuário frequente de cigarro eletrônico pode dar quase 1 mil tragadas por dia, quase o triplo de um maço de cigarro comum.
- Ariane perdeu 18 quilos, ficou 45 dias internada, teve tuberculose e uma infecção por uma bactéria rara, e hoje faz tratamento que deve durar pelo menos 1 ano e 8 meses.
Ariane faz parte de uma geração que teve no narguilé um dos primeiros contatos com o tabaco e a nicotina e acompanhou a popularização dos vapes entre os jovens. No Dia Nacional de Combate ao Fumo, neste sábado (29), médicos ouvidos pela reportagem alertam que fumando só de vez em quando ou apenas no fim de semana também faz mal para a saúde.
Os primeiros problemas de saúde surgiram em 2023, quando ela começou a ter tosse seca, febre e dor nas costas, do lado esquerdo, com frequência. Tomava remédio, melhorava, mas depois os sintomas voltavam.
Em julho daquele ano, o quadro piorou. Uma mancha foi vista no pulmão, e os médicos passaram a investigar se seria pneumonia ou até câncer.
Os antibióticos não adiantaram, e Ariane ficou 45 dias internada. Os médicos diziam que meu pulmão parecia o de uma pessoa de 40 anos que fumou a vida inteira, conta.
O que acontece no pulmão
Fiquei com várias cavitações, espaços cheios de ar ou líquido dentro do pulmão, o que os médicos chamam de pulmão de pipoca, e eles chegaram a cogitar tirar parte do meu pulmão superior esquerdo, relata. Foi então que ela parou de fumar.
Mesmo para quem fuma de forma esporádica, o risco de adoecer continua existindo. A pneumologista Ingrid Higashi, do Hospital Estadual de Bauru, em São Paulo, explica que cada vez que a pessoa fuma, as vias aéreas e os alvéolos ficam em contato com substâncias irritantes e tóxicas.
No curto prazo, podem aparecer tosse, catarro, chiado e falta de ar. Se a exposição se repete, o pulmão fica inflamado por mais tempo e pode sofrer alterações que se acumulam ao longo dos anos.
No caso do narguilé, um erro muito comum é achar que a água funciona como filtro e reduz os riscos. O pneumologista Luiz Felipe Natel Kugler Mendes, do Hospital Vita, em Curitiba, no Paraná, explica que a água pode baixar a temperatura da fumaça e suavizar um pouco o efeito irritante, mas não retém as substâncias tóxicas.
Além disso, o carvão usado para aquecer o tabaco é outra fonte de problema. Segundo Higashi, a queima do carvão libera monóxido de carbono, partículas finas e outras substâncias tóxicas. O monóxido de carbono se agarra à hemoglobina do sangue e impede que o oxigênio chegue corretamente aos órgãos do corpo.
A tuberculose e as infecções que vieram depois
Em janeiro de 2024, Ariane já havia voltado ao trabalho, mas a tosse seca não parava. No mês seguinte, ela passou mal novamente e foi a um hospital. Uma tomografia apontou a necessidade de investigar tuberculose, que foi confirmada pelos exames de escarro.
A doença veio acompanhada de uma perda rápida de peso. Ariane conta que perdeu 10 quilos em um mês e, em certa época, 7 quilos em uma única semana. No início do tratamento, tomava nove comprimidos por dia e chegou a desmaiar.
Mendes explica que a tuberculose pode formar cavidades no pulmão. Já a exposição constante à fumaça está ligada a processos inflamatórios que podem acabar em bronquite crônica, enfisema e, somados, na doença pulmonar obstrutiva crônica, conhecida como DPOC.
Os problemas de Ariane não acabaram com o primeiro tratamento. No final de janeiro de 2025, a tosse voltou, dessa vez com dor intensa no peito e nas costas e falta de ar. Cheguei a um ponto em que não conseguia nem escovar os dentes nem lavar uma louça, relata.
Ela diz ter perdido 18 quilos desde o início dos problemas. Novos exames, que incluíram biópsias, identificaram o microrganismo Mycobacterium avium, uma bactéria diferente da que causa a tuberculose comum. Ariane iniciou um novo tratamento que, segundo ela, deve durar pelo menos um ano e oito meses.
Compartilhar o narguilé amplia o risco de infecção
Segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, é impossible determinar com certeza quando ou como Ariane ficou em contato com os microrganismos que causaram as infecções. No entanto, o compartilhamento do narguilé é uma das situações que podem facilitar a passagem de agentes infecciosos de uma pessoa para outra.
Compartilhar o bocal facilita a transmissão de infecções, afirma o pneumologista. Ele cita vírus como influenza e coronavírus, herpes e infecções bacterianas da boca. Também existem registros de transmissão de tuberculose. Se uma pessoa estiver contaminada e estiver compartilhando o dispositivo, os outros que fumam junto também podem ser infectados.
O risco não se limita ao contato direto com a boca no bocal. Mendes afirma que líquidos e resíduos deixados nas peças internas do aparelho, principalmente quando não há higienização adequada, também podem abrigar microrganismos. A água parada que fica ali pode virar um meio de cultura e propagar infecções, diz.
Isso não significa, no entanto, que a tuberculose ou a infecção por Mycobacterium avium de Ariane tenham vindo do narguilé. Além da possibilidade de transmissão pelo compartilhamento, o próprio hábito de fumar pode deixar o sistema respiratório mais frágil. Mendes explica que quem fuma tem mais infecções respiratórias porque a exposição constante à fumaça causa danos aos pulmões.
O cigarro eletrônico e os vapes tomam o lugar do narguilé
Enquanto Ariane começou a fumar numa época em que o narguilé dominava as rodas de amigos, o cigarro eletrônico passou a ocupar parte desse espaço entre os mais jovens. A cardiologista Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Cessação de Tabagismo do InCor-HCFMUSP, diz que antes recebia principalmente fumantes de cigarro convencional mais velhos em busca de tratamento. Hoje, observa usuários de nicotina em idades bem mais baixas.
O cigarro eletrônico também mudou a forma de consumo. Segundo Scholz, fumar um maço de cigarro convencional equivale a cerca de 250 tragadas, enquanto um usuário frequente de cigarro eletrônico pode chegar a quase 1 mil por dia.
O produto não libera apenas vapor de água. Higashi explica que o aparelho aquece um líquido e produz um aerossol que pode conter nicotina, partículas muito finas, metais e compostos orgânicos, além de substâncias formadas durante o aquecimento, como formaldeído e acroleína.
Entre as complicações já descritas está a EVALI, sigla em inglês para lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos. A condição pode causar tosse e falta de ar e, em casos graves, evoluir para insuficiência respiratória.
Para Scholz, os vapes pioraram o problema porque permitem um uso mais contínuo. Ela relata receber pacientes jovens com sinais de dependência, sintomas como ansiedade quando ficam sem fumar e alterações na frequência cardíaca ligadas ao consumo.
A vida de Ariane hoje
Ariane, hoje com 26 anos, diz não ter vontade de voltar ao narguilé ou ao cigarro eletrônico. Sua rotina, porém, ainda é marcada pelo tratamento. Às segundas, quartas e sextas-feiras, ela vai a uma unidade de saúde para receber medicação por cateter. Toda semana, retorna ao Hospital das Clínicas de São Paulo para acompanhamento, exames e cuidados com o dispositivo. Costumo dizer que passo mais tempo no hospital do que em casa, afirma.
As limitações aparecem também fora do hospital. A empreendedora, que gostava de jogar futevôlei, diz que hoje sente muita falta de ar. Ainda vai à academia, mas evita pesos e se concentra nas máquinas. Também procura evitar locais muito lotados e reduzir a exposição a infecções respiratórias.
Casada e mãe de uma menina, ela diz que hoje olha de outro jeito para as pessoas que fumam em bares e outros encontros. O que começou na adolescência, como parte das festas com os amigos, deixou marcas que ainda fazem parte da sua rotina.
Minha vida mudou completamente. Meu recado é: parem enquanto dá tempo. Isso leva à morte mais rápido do que a gente imagina.


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