Deputado argentino Nicolás Massot lidera delegação de 10 parlamentares a Brasília para mostrar que a maioria do mundo político da Argentina rejeita as ofensas de Milei a Lula e pedir a restauração das relações diplomáticas entre os dois países.
As ofensas que o presidente da Argentina, Javier Milei, fez contra o presidente Lula no último mês são rejeitadas pela maioria do mundo político argentino, afirma o deputado Nicolás Massot, da província de Buenos Aires. Para provar isso, ele lidera uma delegação de dez parlamentares de diferentes partidos que viaja a Brasília nesta terça-feira (1º) para se reunir com autoridades brasileiras.
O grupo tem previsto, na quarta-feira (2), um encontro com o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, no Palácio do Planalto, e uma reunião com senadores brasileiros, incluindo Nelsinho Trad (PSD-MS), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado. A agenda também inclui uma reunião no Itamaraty, ainda a ser confirmada.
Resumo da notícia
- Milei chamou Lula de "ladrão", "presidiário" e "lixo socialista", o que causou a pior crise diplomática entre Brasil e Argentina em 40 anos.
- O governo Lula expulsou o embaixador argentino do país como resposta aos ataques.
- A delegação argentina busca pedir desculpas ao Brasil e restaurar as relações diplomáticas.
- Milei ficou 24 dias sem aparecer em público após a crise, mas voltou a atacar Lula em uma entrevista há dez dias.
- Segundo Massot, quem mais perde com a crise é a Argentina, pois o Brasil tem muito mais peso na região hoje.
"Iremos a Brasília para deixar bem claro que uma grande maioria da representação política da Argentina discorda totalmente dessa situação e repudia as declarações de Milei", afirmou Massot. "Buscamos, com esta visita, um desagravo ao povo e ao governo brasileiro e uma ratificação do caráter estratégico e transcendental que a relação com o Brasil tem para a grande maioria dos argentinos."
Quem é o deputado
Massot tem se esforçado para construir uma alternativa política à direita de Milei e à esquerda de Cristina Kirchner nas eleições presidenciais argentinas do ano que vem. O grupo que ele leva a Brasília é formado por parlamentares de diferentes correntes ideológicas, principalmente de centro e de esquerda.
Ele é membro do Grupo Parlamentar de Amizade com o Brasil e já integrou a Comissão de Relações Exteriores do Congresso argentino. Massot foi um dos primeiros a criticar os ataques de Milei a Lula, feitos durante o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro no final de julho.
O que causou a crise
Naquela ocasião, Milei chamou Lula de ladrão, presidiário e "lixo socialista", além de classificar o ministro do STF Alexandre de Moraes de "lixo careca". As declarações desencadearam a pior crise diplomática entre os dois países em 40 anos.
Os ataques levaram à convocação do embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e do representante brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestarem esclarecimentos. Nas semanas seguintes, o governo Lula expulsou Raimondi do país e rebaixou as relações diplomáticas com a Argentina de forma inédita.
Milei volta a atacar
Após a crise, Milei ficou 24 dias sem aparecer em público, o que ajudou a acalmar as coisas. Porém, há dez dias ele voltou a falar sobre Lula em uma entrevista à rádio Mitre, ao ser questionado sobre seu ex-assessor Fernando Cerimedo, preso por supostamente ter planejado a tentativa de assassinato da companheira dele.
"Essa pessoa não faz parte do nosso grupo e não tem nenhuma ligação conosco. Rompemos relações com ela em 2023. Não vamos descartar a possibilidade de que por trás disso esteja toda a quadrilha de Pagano, Bindi, Evo Morales, Castro-Chavismo, Lula", afirmou Milei, acusando o governo brasileiro de "interferir nos processos eleitorais em toda a região" e repetindo, sem provas, que o Brasil estaria por trás de uma "campanha anti-Argentina".
Quem perde com a crise
Para Massot, a crise significa perda de oportunidades econômicas. "Há um contexto internacional de preços muito favoráveis para o agronegócio", afirma, sobre a possibilidade de acordos comerciais para o Mercosul. "Infelizmente, essa situação diplomática anormal, esse conflito autoinfligido por Milei, acaba adiando as coisas. A verdade é que a Argentina e o Brasil deveriam estar coordenando muito mais ações para a projeção do comércio internacional hoje em dia."
O trabalho do Congresso argentino em relação ao Brasil está parado por falta de uma "visão estratégica comum", segundo o deputado. Ele argumenta que os dois países deveriam superar as diferenças ideológicas, pois são muito importantes um para o outro.
Segundo Massot, quem mais sai perdendo com a crise é a Argentina. "Por mais difícil que seja aceitar, é verdade: trata-se de uma relação que se desequilibrou ao longo do tempo devido a fatores demográficos e econômicos, e hoje o peso regional do Brasil é muito maior que o da Argentina."
"Se o presidente argentino tiver que fazer algum esforço para ter um relacionamento melhor e mais frutífero com alguém que pensa diferente dele, o primeiro que ele teria que escolher é o presidente do Brasil", completa Massot.
O deputado também destaca que os ataques de Milei são gratuitos, pois a Argentina deveria estar agradecida ao Brasil por ao menos dois episódios: a crise energética do início de 2024, quando Buenos Aires recorreu ao gás da Petrobras para suprir a alta demanda, e quando o Brasil assumiu a representação diplomática da embaixada argentina em Caracas diante de ameaças da ditadura venezuelana de expulsar a equipe diplomática de Milei.
"Não há mais espaço para continuarmos com isso, independentemente de quem vencer no Brasil", diz o deputado argentino sobre as eleições de outubro.


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