A COP17, realizada na Mongólia, terminou sem um acordo obrigatório para combater as secas. Países ricos recusaram se comprometer e especialistas alertam que comunidades em todo o mundo pagarão o preço do atraso.
Palavras como inacreditável, frustrante e sabor amargo foram algumas das expressões usadas por organizações ambientais, representantes da sociedade civil e especialistas para descrever os resultados da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), encerrada na sexta-feira (28) em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.
O principal motivo da frustração foi o novo adiamento de um acordo global para enfrentar as secas e seus impactos sobre as comunidades em todo o mundo.
- A COP17 terminou sem decisões concretas para combater as secas, o que frustrou especialistas e organizações ambientais de todo o mundo.
- Países ricos, como os da União Europeia, recusaram firmar um acordo obrigatório e preferiram uma adesão voluntária, sem compromissos financeiros.
- A Europa enfrenta uma seca histórica e o nível do Rio Colorado, nos Estados Unidos, caiu para patamares recordes no mesmo período.
- Um novo mecanismo de financiamento, chamado DRIF, foi lançado com a meta de mobilizar até US$ 400 milhões para o combate às secas.
- A decisão foi transferida para a COP18, que será realizada no Egito, em apenas dois anos, o que especialistas consideram pouco tempo diante da urgência do problema.
O especialista do Instituto Escolhas, Rafael Giovanelli, afirmou que os governos falharam ao empurrar para a próxima conferência, no Egito, a solução de um problema que não pode esperar.
Ele reforçou que a saída da COP17 sem decisões concretas é uma grande frustração, pois encerra-se o debate sem uma base sólida para agir.
Richard Lee, representante da organização Wetlands Internacional, destacou que a falta de consenso chega em um momento em que o número de desastres relacionados à seca não para de crescer. Ele citou a seca histórica na Europa, os níveis recordes de baixa do Rio Colorado e o risco de um Super El Niño, que pode causar secas devastadoras do sul da África até a Amazônia.
Ele completou dizendo que muitos esperavam que esse cenário obrigasse os governos a agir, mas que o adiamento da decisão em mais dois anos terá um custo alto: comunidades e economias de todo o mundo pagarão a conta.
Christine Colvin, especialista em políticas de águas da WWF Global, acredita que a ação conjunta de governos, sociedade civil e instituições financeiras pode gerar algum avanço contra as secas. Porém, ela alerta que iniciativas isoladas não serão suficientes para enfrentar a crise. Para ela, a ambição sobre o tema se esvaziou na conferência e não se entregou um resultado que permita construir ações concretas no futuro.
O que era o acordo global contra as secas
A ideia de criar um mecanismo multilateral para enfrentar as secas de forma coordenada é defendida por países africanos ao menos há três conferências. O continente africano é historicamente um dos mais afetados pelo problema da falta de água.
Esse mecanismo traria ajuda financeira para que os países mais pobres pudessem se antecipar aos eventos extremos e se recuperar depois deles. Os defensores do acordo argumentam que fundos internacionais existentes, como o Fundo Global para o Meio Ambiente, são voltados para a degradação das terras de forma geral, o que não atende à urgência específica da seca.
No entanto, os países mais ricos se recusaram a aceitar um acordo obrigatório e propuseram apenas uma adesão voluntária. A União Europeia, em especial, não pretende assumir gastos extras, principalmente por já estar enfrentando crises de seca em seu próprio território.
Novas iniciativas surgem para tentar preencher a lacuna
Para tentar compensar a ausência de um acordo global, várias iniciativas foram lançadas durante a COP17 com o objetivo de enfrentar o problema das secas de forma independente.
A principal delas é o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), a primeira plataforma do mundo de financiamento dedicada exclusivamente a esse tema. A iniciativa foi criada pela UNCCD, órgão da ONU que combate a desertificação, em parceria com Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca. O objetivo é mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados.
Esse dinheiro será investido em segurança hídrica, agricultura sustentável, soluções baseadas na natureza e recuperação de terras degradadas.
Outra novidade foi a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca, que apresentou o primeiro Índice de Resiliência à Seca. A ferramenta servirá para que os países possam medir sua capacidade de prever, se preparar e se adaptar aos períodos de escassez de água.


Lançamento do Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), na COP17, em Ulaanbaatar, Mongólia, 30/08/2026. Foto: Kiara Worth/NCCD


