Tribunal arbitral decidiu que o grupo suíço-russo Eurochem deve pagar valores retidos desde 2022 referentes à compra da Fertilizantes Heringer, em uma disputa avaliada em mais de 300 milhões de reais.
Três dias antes de pedir proteção judicial para iniciar uma negociação com seus credores, a Fertilizantes Heringer recebeu um acerto parcial de um tribunal arbitral. Em 24 de agosto de 2026, a empresa foi notificada de que o grupo suíço com capital russo, Eurochem, seu atual controlador, foi condenado a pagar valores à família Heringer, a antiga dona da companhia. Os tribunais da Câmara de Arbitragem do Mercado (CAM) determinaram que a empresa europeia devolva valores que estavam retidos desde 2022, relacionados ao acordo de compra de 51,48% do capital da fabricante de fertilizantes.
A decisão, proferida em 21 de agosto, trata do ajuste de preço previsto no contrato de venda firmado em 2021. Embora a decisão seja parcial, ela marca um novo capítulo na longa briga entre os fundadores da empresa e o grupo estrangeiro. O valor total da causa está estimado em R$ 323,9 milhões, conforme informado pela própria Fertilizantes Heringer em comunicado ao mercado na terça-feira, 1 de setembro.
- O que foi decidido: A Eurochem deve pagar a atualização dos valores retidos do acordo de 2021, mais multa e juros, à família Heringer.
- Contexto da compra: Em 2021, a Eurochem comprou o controle da empresa por R$ 554,5 milhões, mas reteve parte do pagamento como garantia contra possíveis fraudes.
- Motivo da briga: A família alega que as perdas comprovadas são menores do que o valor retido; a Eurochem alega que as fraudes internas exigem maiores descontos.
- Situação atual da Heringer: A empresa enfrenta forte crise financeira, com vendas caídas pela metade e pedidos de fôlego judicial para lidar com dívidas.
- Próximos passos: O tribunal ainda precisa definir o valor exato a ser pago e a família tem prazo para pedir esclarecimentos sobre a sentença parcial.
A sentença do tribunal arbitral também determinou que a Eurochem e a Heringer entreguem à família Heringer a condução dos processos judiciais e administrativos relacionados a certos ativos. Além disso, a decisão ordenou medidas para garantir a transferência de um imóvel que havia sido vendido pela companhia a dois membros da família.
Conforme o comunicado assinado pelo diretor financeiro e de relações com investidores da Heringer, Fernando Yagura Maeda, o valor total da causa é de R$ 323.924.784,78. Até o momento, não foi feito nenhum pagamento desses valores retidos à família, segundo a diretoria.
A origem do conflito
O embate começou com a própria forma como a compra foi fechada em 20 de dezembro de 2021. Naquela data, a Eurochem assinou um contrato de compra e venda de ações com Dalton Dias Heringer, Eny de Miranda Heringer, Dalton Carlos Heringer e o espólio de Juliana Heringer Rezende. A Heringer Participações (HeringerPar), a própria companhia e a Fertilizantes Tocantins também fizeram parte do acordo.
O negócio previa que os europeus pagariam R$ 554,5 milhões por 27,7 milhões de ações, ao preço de R$ 20 por ação. Isso avaliava a empresa em cerca de R$ 1,077 bilhão na época. Contudo, o pagamento não foi feito de uma vez: 50% foram pagos na hora, 15% ficaram retidos como garantia de ajustes de preço e outros 35% ficaram retidos como garantia de eventuais indenizações que os vendedores deveriam à compradora.
Quando a operação foi concluída em março de 2022, a Eurochem passou a ter 100% das ações da HeringerPar e, indiretamente, 51,48% do capital da Fertilizantes Heringer. A família recebeu à vista R$ 277,2 milhões. No entanto, um desconto posterior de R$ 27,6 milhões (equivalente a R$ 1 por ação), causado por dívidas descobertas na holding familiar, fez com que o preço efetivo pago aos fundadores ficasse em R$ 19 por ação.
O rompimento definitivo aconteceu quando a Eurochem avisou os vendedores que, na visão da empresa, os prejuízos a serem indenizados eram maiores do que o valor que estava retido. Por esse motivo, nenhum centavo foi liberado à família até hoje.
Todo esse processo foi desencadeado por uma investigação interna de fraudes anunciada em agosto de 2022, que fez as ações da Heringer caírem 13% na Bolsa de São Paulo (B3). Em novembro daquele mesmo ano, a empresa informou que a primeira fase das investigações havia confirmado R$ 50,7 milhões em pagamentos inflados para fornecedores, algo que teria ocorrido com manipulação de concorrências.
Impactos financeiros e a crise da empresa
A arbitragem começou em 2024. A Heringer informou o mercado pela primeira vez em abril de 2024 e atualizou a situação em abril de 2025. A audiência final aconteceu em dezembro de 2025 e, em fevereiro de 2026, o tribunal decidiu separar parte da decisão. Agora, em agosto de 2026, veio a sentença parcial que condena a Eurochem a pagar a atualização dos valores do acordo de preço, calculada desde a data do fechamento do negócio (28 de março de 2022) até o pagamento real (14 de setembro de 2022), com acréscimo de multa e juros.
Os valores exatos de cada item não foram revelados publicamente pela companhia. O tribunal ainda vai definir o escopo da perícia e as partes ainda podem pedir esclarecimentos sobre o que foi decidido.
Essa não é a única briga da Heringer nos tribunais. Ainda em 2023, um grupo de pequenos investidores que havia vendido suas ações abriu um pedido de arbitragem contra a Eurochem, pedindo cerca de R$ 30 milhões que, segundo eles, não tinham sido repassados corretamente.
A decisão chega num momento de grande fragilidade para a Fertilizantes Heringer. No segundo trimestre de 2026, a empresa vendeu apenas 103 mil toneladas de fertilizantes, uma queda de 62% em comparação com o mesmo período do ano anterior. No primeiro semestre de 2026, as vendas caíram pela metade, para 305 mil toneladas, e a receita caiu 55%, para R$ 316,5 milhões.
A empresa teve um prejuízo líquido de R$ 37 milhões, impulsionado por perdas financeiras de quase R$ 40 milhões. As dívidas totais somam R$ 813 milhões. Diante dessa realidade, a companhia pediu proteção à Justiça. Em 27 de agosto, iniciou uma mediação com credores e pediu a suspensão de cobranças por 60 dias. No dia 31, a Justiça de São Paulo deferiu parcialmente esse pedido, dando 60 dias à empresa para negociar suas obrigações.
A Heringer já passou por uma recuperação judicial entre 2019 e 2022, quando renegociou mais de R$ 2 bilhões em dívidas. Agora, a empresa enfrenta um novo ciclo de renegociação, enquanto a disputa com a família Heringer se desenrola nos tribunais.


Foto de arquivo do site AgFeed


