16 de setembro de 2026

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Floresta da Tijuca vira templo de fé para várias crenças no Rio

Cultura 30/08/2026 07:31 O GLOBO extra.globo.com

Peregrinos e fiéis de diferentes religiões, como evangélicos, candomblecistas, druidas e indígenas, usam trilhas, cachoeiras e pedras da Floresta da Tijuca para orar, fazer rituais e se conectar com o divino. A prática divide espaço com regras de preservação ambiental.

Uma trilha na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, virou um caminho de fé para muitas pessoas. Elas não sobem para fazer esporte, mas para orar e sentir uma conexão espiritual.

Durante uma semana, a reportagem percorreu diferentes áreas do Parque Nacional da Tijuca e mostrou como a mata se transforma em lugar de devoção para quem segue religiões diferentes. Entre trilhas, cachoeiras, grutas e mirantes, há quem reze, lave guias, veja a própria floresta como templo e realize rituais ligados a tradições indígenas.

  • A Floresta da Tijuca é uma área protegida, e por isso a prática religiosa precisa respeitar regras ambientais.
  • Existem pontos com nomes próprios, como Jardim Secreto e Garganta do Céu, usados por fiéis para orar.
  • Alguns evangélicos sobem montes, queimam pedidos em papel e consideram o esforço físico parte da fé.
  • Religiosos de matriz africana usam cachoeiras para lavar guias e buscar água para rituais em casa.
  • Druidas, terapeutas e grupos indígenas também usam a mata, o que mostra a diversidade religiosa do local.

Para Ricardo Malta, autor de uma pesquisa sobre os usos religiosos do parque, é como se cada grupo falasse uma língua diferente, mas todos quisessem chegar ao divino pelos sinais da floresta.

Porém, apesar da diversidade, existe uma regra comum para todos: o local é uma unidade de conservação. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) permite a fé, mas não autoriza mudanças no ambiente em nome da religião. É nessa linha tênue entre o sagrado e a proteção ambiental que surgem conflitos e acordos.

O Monte

Desde o início dos estudos de Malta, o Monte Cardoso Fontes já aparecia como um ponto importante. Nos últimos anos, o local passou a atrair cada vez mais peregrinos. Logo na entrada, Renata Alvarenga, de 46 anos, cuidadora de idosos, lê a Bíblia enquanto se prepara para mais uma subida. Ela frequenta o monte há cerca de oito anos, três anos depois de se converter, e costuma subir uma vez por semana entre o trabalho.

Renata explica que para na pedra para orar e segue subindo até sentir o momento em que Deus toca o coração dela.

O caminho é íngreme, irregular e, em alguns trechos, exige passar por baixo ou por cima de pedras e outros obstáculos deixados pela natureza. Nem mesmo os troncos caídos após vendavais parecem assustar os peregrinos.

Entre os caminhantes há jovens e idosos, homens e mulheres, e muitos vestem roupas de culto, como se estivessem na igreja. Entre eles estão Vera Augusto, de 54 anos, dona de casa, e Aparecida da Silva, de 69 anos, moradoras da Cidade de Deus, a cerca de nove quilômetros dali, que repetem a caminhada há quase dez anos.

Vera aparece na trilha com véu branco, vestido de mangas longas e tamanco aberto. No descampado, de onde se vê parte da Zona Norte, ela abre os braços para o céu e ora sob o olhar atento de Aparecida. Para ela, subir o monte é uma forma de guerra espiritual.

Quem vê os problemas da cidade, como a cracolândia e a violência, precisa fortalecer o espírito, afirma Vera. Por isso, ela busca subir o mais alto possível.

Perguntada até quando pretende encarar o caminho, Vera não hesita.

Ela responde que vai até o fim, que só para quando morrer e que é ali que encontra força e revelações.

No cume, também está Eliseu Teixeira, de 31 anos, vidraceiro e morador do Tanque, na Zona Sudoeste. Ele é membro da Assembleia de Deus Kadosh Santificados, em Curicica, e conta que viveu ali uma experiência que chama de batismo no espírito, diferente do batismo nas águas.

Eliseu sobe com calça social, camisa de botão, Bíblia na mão e cânticos religiosos no fone. Para ele, o esforço físico também faz parte da experiência religiosa.

Ele gosta de ler, ouvir louvor e sentir, segundo suas palavras, um contato íntimo com Deus. A Bíblia, para ele, vai além do templo.

Pouco depois, Eliseu ajoelha na terra batida, apoia a cabeça na Bíblia e começa a orar.

Pelo caminho, outros grupos fazem coisas parecidas. Há pessoas cantando, gravando vídeos e parando diante de pedras para orar. Num espaço aberto entre as árvores, uma mulher caminha em círculos, fala em línguas e levanta a voz.

Alguns pontos da trilha ganharam nomes próprios, como Jardim Secreto e Garganta do Céu. Esses nomes mostram como a floresta também foi marcada pela devoção de quem passa por ali.

Depois, Tamires de Souza, de 30 anos, e Thifany Duarte, de 21 anos, seguem pelo mesmo caminho. As duas são amigas e frequentam a Igreja Pentecostal Assembleia dos Santos em Missões, no Morro do Amor, no Lins, na Zona Norte. Tamires começou a subir o monte há cinco anos, depois de se converter.

Antes de começar a caminhada, os fiéis costumam escrever pedidos em pedaços de papel. No topo, alguns queimam as mensagens como parte do ritual.

Para Tamires, esse é um ato de fé e de propósito diante de Deus.

Essa prática, porém, esbarra em um limite importante: a preservação ambiental. A fumaça e as cinzas do papel queimado deixam resíduos na mata, e o uso de fogo aumenta o risco de incêndio, o que preocupa os responsáveis pelo parque.

Natureza como altar

No Alto da Boa Vista, na área conhecida como Curva do S, a água desce em pequenas quedas entre as pedras. O som da cachoeira se mistura às vozes de quem chega para lavar guias, tomar banho e realizar trabalhos religiosos. Ali, a floresta também funciona como terreiro.

Ailton Moraes, de 31 anos, e Laysa Maria Costa, de 26 anos, foram à Floresta da Tijuca pela primeira vez para lavar guias. Ele é umbandista e ela é candomblecista. Para os dois, a água, as árvores e as pedras não são apenas cenário, mas parte do ritual.

Kleimar Ferreira, de 57 anos, mãe de santo do candomblé, conhece bem essa relação. Moradora do Méier, na Zona Norte, ela frequenta a mata há mais de duas décadas. Durante anos, grupos ligados à casa dela levaram roupas e comidas destinadas aos orixás para dentro da floresta.

Hoje, Kleimar tem um cuidado diferente: tudo o que ela leva para a mata precisa voltar com ela. Ela não quer deixar nenhum resíduo no lugar.

Ela conta que leva uma vassoura e recolhe tudo o que foi usado em uma sacola, para não sujar a floresta.

No mesmo local, Mônica da Costa, de 58 anos, também mãe de santo, se prepara para entrar na água. Moradora do Encantado, na Zona Norte, ela visita a cachoeira duas ou três vezes por mês para levar água para casa. Ao lado dela está Marcos Pires, ogã da casa, que toca o atabaque e a acompanha nos trabalhos.

A cachoeira de referência do terreiro fica em Magé. Porém, a distância dificulta as visitas frequentes, e a Curva do S vira uma alternativa mais próxima.

Mônica explica que Magé é longe demais para ir com frequência e que a Curva do S é mais perto.

Apesar da devoção, Mônica repara no que acontece ao redor. Quando encontra lixo entre as pedras, ela fica triste.

Ela lamenta a sujeira e diz que a floresta é a casa sagrada dela e das pessoas que acreditam naquela energia.

Em diferentes pontos do Alto da Boa Vista, o mapeamento de Ricardo Malta mostra uma sobreposição de usos. Áreas procuradas por praticantes de religiões de matriz africana também são associadas a outras tradições, como druidismo, xamanismo e budismo. Não há placas indicando essas fronteiras. Elas existem para quem conhece os caminhos, os rituais e os significados dados a cada parte da floresta.

Para a druidesa Bandrui de Gergóvia, não existe separação entre a prática religiosa e o lugar onde ela acontece: a própria floresta é o templo. Ela descobriu o druidismo em 1986. Quatorze anos depois, ao chegar ao Rio, encontrou na Floresta da Tijuca o espaço para praticar uma tradição que considera a natureza sagrada. Há mais de duas décadas, ela conduz um grupo que realiza sete das oito celebrações sazonais na mata.

Segundo Bandrui, para o grupo não existem templos. A floresta não é pano de fundo para as celebrações, e sim o próprio altar.

Cânticos, danças e preces fazem parte dos rituais. Algumas práticas, porém, foram adaptadas para respeitar as regras da unidade de conservação. No parque, o grupo deixou de fazer oferendas e rituais com fogo.

Bandrui confirma que não faz mais oferendas porque existe uma regra na floresta.

Já a terapeuta holística Vera Alves, de 60 anos, encara a floresta como um portal. Em 2014, ela fundou o grupo Fadas Brilhantes Diamantes, formado por terapeutas. Segundo ela, a criação surgiu de forma intuitiva, a partir da orientação para abrir uma passagem no Recanto do Bom Retiro.

Desde então, o grupo se reúne pelo menos uma vez por mês em algum ponto do Parque Nacional da Tijuca. Os participantes fazem meditações e, como dizem, ancoram energia no local.

Para Vera, não se trata de uma religião, e sim de um estilo de vida.

A presença religiosa no parque não se limita a manifestações menos conhecidas. No Alto do Corcovado, o Cristo Redentor concentra a expressão mais visível do catolicismo e recebe diariamente fiéis e visitantes de diferentes credos. Há outros exemplos discretos, como a Capela Mayrink, pequena construção cor-de-rosa cercada pela mata, que recebe missas pelo menos uma vez por mês. A Capela de São Silvestre, uma das menores capelas do Brasil, também é um marco da presença religiosa dentro da floresta.

Em meio ao verde, há ainda registros de manifestações ligadas a tradições indígenas. Em 5 de julho de 2025, um ritual associado ao povo Huni Kuin, também conhecido como Kaxinawá, foi realizado no setor Floresta da Tijuca. Durante a cerimônia, os participantes eram pintados e recebiam fumaça no rosto e no corpo, enquanto outros aguardavam sentados no solo da mata. Eram mais de dez participantes, sem contar os responsáveis pelo ritual.