Padres do Rio usam objetos religiosos para atender fiéis; Igreja explica que não busca expulsar demônios, mas dar apoio espiritual
A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro tem 17 padres autorizados pelo Vaticano a realizar exorcismos. Eles atuam em diferentes regiões da cidade e atendem pessoas que atribuem problemas como depressão, luto, vícios e brigas familiares a causas espirituais.
Todo atendimento passa por avaliação de psicólogos e psiquiatras para descartar doenças mentais. O exorcismo só é feito se médicos e religiosos confirmarem que o caso precisa de intervenção espiritual.
Resumo em 5 pontos:
- Os 17 padres estão espalhados por 13 vicariatos no Rio.
- Cada padre atende dezenas de pessoas por mês.
- O ritual é cercado de critérios e não é feito por impulso.
- A Igreja diz que o objetivo é acolher, não expulsar demônios.
- Muitos casos são resolvidos com orientação e oração.
Na ponta desse trabalho está o cônego Luiz Carlos Pereira, de 60 anos. Ele é exorcista do Vicariato Episcopal de Campo Grande. Todos os dias ele confere a maleta preta com sal grosso, terço, água benta, cordão de São Francisco e um livro de rituais.
Com a maleta, Pereira percorre casas e igrejas da Zona Oeste. Ele atende cerca de 30 a 40 pessoas por mês.
Possessão é a manifestação visível do maligno, mas não é qualquer pessoa que precisa de exorcismo. Primeiro conversamos, buscamos a origem do sofrimento, orientamos na oração e fazemos um discernimento, explica.
A Arquidiocese do Rio tem o maior número de padres exorcistas entre as capitais brasileiras. Eles são distribuídos por 13 vicariatos e 299 paróquias.
Luiz Carlos Pereira é pároco da Igreja Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande. Ele usa água benta para marcar cruzes nas paredes como sinal de purificação.
Segundo ele, há pessoas que passam mal, falam línguas desconhecidas ou têm força incomum, mas levitar ou quebrar o corpo é coisa de filme.
O ritual ganhou fama com o filme O Exorcista de 1973. Antes de autorizar o rito solene, a Igreja pede avaliações clínicas e psicológicas. Na maioria dos casos, a explicação é médica.
Força incomum
A aposentada Antônia Martins Melo, de 84 anos, conta que seu filho Domingos, desde os 3 anos, tinha crises de agressividade, falava palavras estranhas e demonstrava força incomum. Ela sempre rezava para ele dormir.
Depois de passar por psicólogos e psiquiatras, a família procurou um padre exorcista. O sacerdote fez um exorcismo simples com orações. Domingos se debateu, gritou e tentou atacar o padre, mas com o terço na testa ele se acalmou.
O padre Luiz Carlos lembra de um caso em 2024, numa mansão no Recreio dos Bandeirantes. Os donos diziam que móveis mudavam de lugar, luzes acendiam sozinhas e havia brigas constantes. Eles até saíram de casa.
Fumaça saindo do chão
Na entrada, o padre sentiu uma presença estranha. Por duas horas, espalhou sal grosso e água benta enquanto rezava. Ele conta que viu fumaça saindo do chão quando lançou o sal. Naquela noite, a família voltou a dormir em casa.
Geovane Ferreira Silva, pároco da Igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, é responsável pela formação de novos exorcistas. Ele diz que há cursos específicos e que, no Rio, cerca de 260 padres participaram de três cursos. Mas ser exorcista depende do bispo.
O objetivo não é caçar demônios, e sim prestar um serviço pastoral responsável e fazer um discernimento cuidadoso, afirma.
Em nota, a Arquidiocese do Rio diz que os sacerdotes exercem a função de acordo com as normas da Igreja, com zelo e dedicação, como parte do acompanhamento pastoral.


O cônego Luiz Carlos Pereira, exorcista pelo Vicariato Episcopal de Campo Grande: ele segura uma pequena maleta com objetos utilizados no ritual de exorcismo Foto: Marina Calderon





