18 de junho de 2026

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A cerimônia do adeus

Artigos 18/06/2026 10:04 por Marco Antonio Spinelli

Existe uma cena do filme “Adeus, June”, disponível na Netflix, que toca numa questão muito importante para as famílias de pacientes caminhando para as fases finais de seus cuidados: três dos quatro filhos de June, interpretada por Helen Mirren, são abordados por dois membros da equipe de Cuidados Paliativos do hospital onde sua mãe vive seus últimos dias. Um homem, com uma malha com desenhos de Natal (o filme se passa a poucos dias do Natal), uma malha incômoda de tão ridícula e tão descabida para aquela conversa, e uma enfermeira vestida com o jaleco. Eles se aproximam para discutir os cuidados com June, diante da gravidade da situação. Uma das filhas, a sempre raivosa Molly, interrompe desrespeitosamente os profissionais e faz uma afirmação que vai abrir a reflexão desse artigo: ela fala – “Vocês são os caras que ajudam as pessoas a morrer”, e faz menção ao uso de medicamentos sedativos para essa finalidade.

A minha colega, Dra Ana Claudia Quintana Arantes, uma grande divulgadora da Medicina de Cuidados Paliativos e, certamente, um de seus maiores nomes, daria várias cambalhotas diante dessa fala, que, infelizmente, costuma ser repetida muitas vezes para a equipe que aparece para ajudar pacientes e famílias em seu momento de maior solidão: quando a capacidade de intervenção da Medicina vai se esvaindo e, proporcionar conforto, dignidade e apoio ao paciente é uma forma de afeto e cuidado, nem sempre presentes em nossa Medicina tecnicista, cheia de algoritmos decisórios. Ana Claudia responde, quando ouve essas pataquadas, que quem ajuda as pessoas a morrer são os fabricantes de cigarros e de bebidas alcoólicas, entre outros. E que usar medicamentos para acabar com a vida de uma pessoa configura uma Eutanásia, e ela, assim como as equipes de Cuidados Paliativos, não praticam Eutanásia.

A raivosa e agressiva Molly complementa que sua mãe deve ser orientada como voltar para casa, para seguir seu tratamento. Ela proíbe a equipe de abordar a sua mãe com as Diretivas Antecipadas de Vontade, uma entrevista que aborda que tipos de intervenção a paciente quer receber, mais ou menos invasivas, durante o curso de sua doença. A enfermeira antecipa que essa entrevista já tinha sido realizada, e sua mãe já tinha feito as suas escolhas. A paciente estava lúcida e apta a se manifestar, e à família, restava tomar conhecimento e respeitar a decisão tomada pela maior interessada.

Vou cometer alguns “spoilers” do bem, que eu espero que sirvam de estímulo para meus leitores darem uma olhada nesse filme:  se você não deslizou para o próximo texto e não fugiu do assunto, está se qualificando para assistí-lo.

Nós vivemos um período em nossa Cultura em que morrer é um palavrão, não um verbo. Quando alguém perde a vida, imediatamente saímos atrás de culpados. A atitude raivosa e consternada das famílias aparece bem nesse filme. Tem uma cena em que o inacreditável marido de June, que durante toda essa progressão de doença parece alheio e não participativo com o que está acontecendo debaixo do seu nariz, fala para sua bondosa esposa que “Não June, você não vai morrer, não fala isso”, e ela responde, muito serena, que “Não, meu bem, estou morrendo sim”.

A iminência da perda e o luto antecipado traz à tona todo que as pessoas têm de pior e, eventualmente, de melhor. O marido inadequado, a filha raivosa, a outra irmã bizarra queimando incensos e berrando mantras, as rixas, as disputas, a incrível estupidez que se revela na medida em que quase todos se recusam a mencionar o imenso elefante que está naquela sala. Toda essa maluquice acaba sendo o caminho para, pouco a pouco, alguns conflitos se resolverem para June encerrar a sua jornada cercada pelo amor de filhos e netos.

Vou destacar o papel do personagem que, ao meu ver, é a encarnação do espírito verdadeiro dos Cuidados Paliativos: o enfermeiro Angel que, o próprio nome já diz, é o anjo que vai reger esse caminho de June, seja cuidando para que ela tenha o máximo conforto, seja garantindo a todos a possibilidade de se despedir. Angel é o anjo da passagem, garantindo conforto e até beleza naquele momento de transição. Esse, ao meu ver, é o espírito profundo dos cuidados paliativos. Como diz um dos livros de Ana Claudia Quintana, é cuidar até o fim. Cuidar quando muita gente prefere se esconder.

Isso me lembra que a vida, como a morte, demanda, sempre, muito cuidado. Antes que seja tarde.

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”